Propondo uma experiência sensorial imersa no verde e na água, residência integra ventilação natural, materialidade consciente e paisagismo nativo
No limite entre o agito urbano e a tranquilidade da floresta nativa amazônica, em Belém, Pará, configura-se a Casa Murici. Assinada pelo escritório Guá Arquitetura, a residência foi totalmente pensada para propiciar ventilação natural e reduzir ao máximo o uso de ar-condicionado. A orientação do projeto privilegia os ventos predominantes e incorpora estratégias de efeito chaminé, que aumentam a circulação de ar; um encontro entre cultura amazônica, design autoral e natureza. O nome vem do tupi-guarani e significa árvore pequena, metáfora da delicadeza e da força que se materializa na kokedama que marca a fachada principal.
A presença constante da água, aliada à vegetação densa e exuberante, evoca imediatamente as paisagens das casas ribeirinhas. A residência se descortina para os jardins e para o espelho de águas escuras, estabelecendo uma relação direta e sensorial com o entorno. Como ao despertar na Ilha do Combu, os quartos se voltam para um horizonte verde que se expande e se duplica nos reflexos da lâmina d’água.

Visando o uso reduzido e criterioso de materiais, a materialidade principal é a madeira de lei em caqueado (ripado) e piso de concreto branco, desenvolvido em parceria com um pesquisador da UFPA, superfícies que equilibram rusticidade e precisão, evitando desperdícios e simplificando a manutenção. Na fachada, o volume branco explora a horizontalidade do terreno amplo. A iluminação natural foi explorada ao máximo por meio de grandes claraboias, jardins de inverno e cobogós. Abaixo, à esquerda, a estrutura metálica e a escada foram executadas por Imaço.


No interior, o olhar se deita sobre a Amazônia em sua expressão artística plena. A curadoria abraça arte, artesanato e design que convivem como linguagem da casa. No mobiliário, peças assinadas pelo escritório se misturam a criações sob medida para o cliente e a aquisições feitas em comunidades tradicionais.
A sala se conecta a um jardim intimista que avança para dentro, promovendo ventilação cruzada e integração visual. Os bancos em madeira da coleção Andiroba e a mesa de centro Josá da coleção Pallas são assinados pelo próprio escritório, para a Vedac. O mural de azulejos é de Alexandre Mancini.




O paisagismo, assinado por Hana Eto Gall privilegia espécies nativas da Amazônia e se integra a todos os ambientes. Trepadeiras regionais recobre totalmente os muros, ampliando a sensação de estar em plena floresta tropical, ao mesmo tempo em que atua como barreira natural contra a incidência solar, tornando imperceptível que se trata de um lote urbano.
Além do aspecto sensorial e afetivo, o paisagismo foi um recurso fundamental para o conforto ambiental. A vegetação densa, associada à piscina e aos espelhos d’água, contribui para a criação de um microclima mais fresco, favorecendo a ventilação natural e reforçando a relação da casa com o clima tropical e com a natureza ao redor.
“Desde o partido arquitetônico, a casa foi pensada com os espaços internos totalmente voltados para a área da piscina e do jardim, fazendo com que esse conjunto se tornasse o centro da casa e o principal núcleo de convívio. O paisagismo, portanto, não ocupa um papel periférico, mas estrutura a experiência de morar, funcionando como o verdadeiro coração do projeto”, comenta Hana Eto Gall



Por Redação
Fotos: Filippo Bamberghi e Susan Valentim
