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Espaços de convívio e mobiliário urbano ressignificam o não-lugar

Projetos urbanísticos que integram vias públicas e privadas estimulam uma nova forma de ocupar as cidades, permitindo conexões e pertencimento

 

Em espaços urbanos, entre uma rua e outra, entre um edifício e outro, entre estações de metrô e praças desocupadas, há centenas de áreas por onde as pessoas passam como se estivessem no piloto automático, sem criar qualquer tipo de vínculo com o local. A função deles é, essencialmente, a transitoriedade, são espaços de passagem, e não de fruição. São o que o etnólogo e antropólogo francês Marc Augé chamou de não-lugar.

O conceito surgiu a partir da análise dos impactos da supermodernidade, da aceleração do tempo e da individualização excessiva, que geram espaços que podem até ser funcionais, mas que não permitem enraizamento, pertencimento e conexões sensíveis. Considerando, ainda, que muitas cidades, como no Brasil, foram construídas sem o devido planejamento urbano, ou foram construídas de modo a privilegiar o tráfego de automóveis, e não de pessoas, os não-lugares se espalharam como uma epidemia.

 

Novos fluxos

Há, contudo, iniciativas que buscam trazer vida para os não-lugares, propiciando formas diferentes de ocupação dos espaços para que não sejam apenas áreas de transição, mas locais onde as pessoas possam se conectar entre si e viver histórias com significado. Exemplo é o projeto arquitetônico do Passeio Paulista, edifício de uso misto da Fibra Experts. O empreendimento de uso misto tem uma localização privilegiada que permitiu a criação de um espaço de convívio conectando a rua da Consolação à Bela Cintra, por meio de um átrio central com praça arborizada e luz natural.

Áreas de convívio permitem que moradores, clientes dos comércios locais e trabalhadores possam ter experiências diversas no local. “Os pedestres se apropriam dessa conectividade entre as ruas pelo meio do quarteirão, medida que favorece a vitalidade  urbana”, destaca Grazzieli Gomes Rocha. sócia do escritório aflalo/gasperini arquitetos.

O Passeio Paulista reúne em um mesmo complexo lajes corporativas, lofts residenciais e uma área destinada a estabelecimentos comerciais, com lajes de aproximadamente 1.800 m² e um embasamento de 3 pavimentos, cada um com cerca de 3.700 m². O projeto recebeu a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) Gold, conferida pelo US Green Building Council, em razão da aplicação de soluções como racionalização do consumo de água, promoção de eficiência energética e redução da emissão de gases de efeito estufa.

 

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Passeio Paulista. Fotos: Daniel Ducci.

 

Complexo urbano

Em uma proposta análoga, o projeto LAPI da Superlimão tem promovido uma nova forma de ocupar São Paulo. Considerado um marco na requalificação urbana do Largo da Batata, o projeto avançou e se tornou um polo dinâmico de cultura, gastronomia e comércio em Pinheiros. Ainda em construção, o empreendimento ocupará uma área de 20 mil m², resultado da integração de dezenas de imóveis que foram adquiridos para formação um complexo de uso misto com lojas, restaurantes, apartamentos e salas comerciais, A mescla de retrofit e novas construções garante que os espaços sejam ressignificados mas sem perder as características que dão identidade à região.

Com masterplan do Spol e desenvolvido pela Jacarandá Capital, o projeto reforça a vocação do bairro para encontros e experiências ao ar livre, permitindo que os espaços de transição sejam, acima de tudo, áreas de interação e fruição. A região antes era ocupada por galpões comerciais dispostos lado a lado, e por isso passou por um processo de abertura e reestruturação espacial. Construções irregulares foram demolidas e novos percursos internos foram criados, permitindo que a luz, a ventilação e a movimentação das pessoas fossem redesenhadas.

 

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LAPI – Centro de cultura, gastronomia e compras. Fotos: Maíra Acayaba.

 

Design que integra

Na ressignificação dos não-lugares, não é apenas a arquitetura que estimula a criação de vínculos, como também o mobiliário urbano, com peças que convidam à interação e à socialização. Exemplo é o especificado na Rua da Saúde, via que conecta os diversos edifícios hospitalares da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Com projeto do escritório Seferin Arquitetura. Foi criada uma cobertura de ligação para a criação de espaços de convívio no local, com paisagismo assinado por EXP Urbanismo e mobiliário da mmcité br.

Sob a cobertura, estão poltronas Stack, compostas com mesinhas Pixel  e bancos Landscape Compact, que acompanham as curvas do projeto. Itens das linhas Lago, Bikeblocq, Donat e Quinbin também foram incluídos, para permitir que os pedestres pudessem ter espaços de descompressão e conexão interpessoal. A estrutura que cobre o pátio do complexo hospitalar é formada por 1.647 painéis de vidro, constituída por uma malha triangular de aço coberta por vidro. “Além de proporcionar  abrigo, a cobertura cria um espaço externo vibrante e verde, oferecendo um ambiente acolhedor  para o relaxamento e socialização dos usuários do hospital“, explica Gustavo Seferin, da Seferin Arquitetura.

A proposta de ressignificação dos não-lugares precisa ser, em essência, democrática, e não excludente. Logo, a acessibilidade deve nortear o design. Bancos com diferentes alturas, pisos táteis, bebedouros acessíveis, sombreamento adequado e iluminação eficiente ampliam o uso democrático dos espaços públicos, contemplando crianças, idosos e pessoas com deficiência.

 

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O espaço conecta os diversos edifícios hospitalares da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Fotos: Tita Leke Fotografia.

 

 

 

Por Victor Hugo Félix

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