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Playgrounds urbanos: pelo direito das crianças à cidade

Além de lúdicos e interativos, os espaços representam a necessidade que os pequenos têm de estabelecer vínculos a partir do cuidado um com outro

 

O espaço urbano no século XX sofreu grandes transformações. Após a Segunda Guerra Mundial o processo de industrialização e os ideais de progresso levaram a uma infraestrutura complexa, fragmentada e dinâmica. E o conceito atual de urbanização se consolidou à medida que ruas e avenidas passaram a comportar um alto volume de automóveis. Desse modo, como as cidades se tornaram hostis à presença de crianças, os playgrounds urbanos surgiram como alternativa para reinserção dos pequenos na vida urbana.

Tais ideias são trazidas por Adriana T. Cordeiro e Sérgio C. Benício de Mello, no artigo “Paradoxos do playground moderno”, que discute o delicado elo que os playgrounds podem criar entre o universo infantil e a sociedade. O tema também é discutido por Isabella Silva de Carvalho, na dissertação “A Cidade como Playground: Repensando os Espaços Urbanos como Arquitetura Efémera”: “Ao longo do tempo, o espaço público evoluiu de áreas informais e integradas ao cotidiano urbano para espaços designados e padronizados, porém muitas vezes inadequados às necessidades atuais de inclusão, flexibilidade e autonomia infantil. Essa trajetória evidenciou a importância de entender o brincar não apenas como uma atividade, mas como uma prática ativa de transformação do espaço, que reflete mudanças sociais, culturais e urbanas.”

 

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Battery Playscape / BKSK Architects + Starr Whitehouse Landscape Architects and Planners. Foto: divulgação.

 

Infinity Playground / Blue Temple. Foto: Nyan Zay Htet.

 

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Climate Adaptation Kokkedal Urban Playground / Schønherr. Foto: Thøger Sørensen.

 

De acordo com Adriana Cordeiro e Sérgio de Mello, as ruas congestionadas e perigosas fazem com que as crianças se recolham ao espaço doméstico, muitas vezes presas a TVs, videogames e computadores que simulam a vida lá fora. Entre os diferentes efeitos da redução na mobilidade da criança urbana, os autores destacam a perda de habilidades e benefícios associados à mobilidade independente, em especial o desenvolvimento da autonomia e capacidade decisória. “Essas habilidades incluem julgamento quanto ao que é seguro, gerenciamento de tempo, desenvolvimento de responsabilidade social e cuidados com o próximo, sobretudo os mais novos e vulneráveis no grupo (um irmão ou um ‘amiguinho’ mais novo)”, dizem.

Adriana e Sérgio afirmam ainda que a sociedade também é impactada, à medida que se minimiza, entre os adultos, o senso de responsabilidade pelas crianças. Trazem, então, um importante questionamento: “A cidade contemporânea provê ao pequeno explorador a amplitude de sensações que a infância de outrora parecia lhe oferecer?”

 

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Red Dunes Playtopia / Xisui Design. Foto: Hu Yihao.

 

Para além de balanços e gangorras

Nesse sentido, playgrounds urbanos são mais do que espaços para o entretenimento das crianças, com balanços, gangorras, gira-giras e outras estruturas comuns em espaços privados — condomínios, escolas, shoppings e até restaurantes. Playgrounds urbanos são integrados à paisagem urbana, espaços públicos que democratizam o acesso das crianças à cidade, cuja infraestrutura faz uso de recursos como cores, relevos no terreno, fontes de água, paisagismo e outros elementos para criação de espaços que possam ser desbravados pelos pequenos com maior liberdade e autonomia.

“O playground exerce um papel importante no tecido urbano das cidades, uma vez que para além de funcionar como um lugar atrativo para as crianças brincarem, proporcionando o desenvolvimento físico e cognitivo, funciona também, como um espaço público capaz de fomentar a socialização e identidade dentro de uma comunidade”, diz Carina Filipa Vieira Martins Antunes Gomes, no artigo “The Playground as Element Regenerating Urban Space and the Standardization of Ludic”. De acordo com a autora, “a ludicidade estimula a criatividade, a aprendizagem e a imaginação devido à necessidade que a criança tem de representar, criar e inventar.”

 

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(Barigui Playground / Antonio Abrão Arquitetura. Foto: João Vitor Sarturi.

 

Integração completa é possível?

Para Adriana Cordeiro e Sérgio de Mello, a discussão se aprofunda ao se notar que a dicotomia exclusão-inclusão não provê um arcabouço adequado sobre o acesso da criança a uma experiência genuína da cidade. “Enquanto a ‘exclusão’ da criança desse espaço deve ser rechaçada, a alocação de espaços específicos e programados, entre as estratégias apontadas como ‘inclusivas’ pelo planejamento urbano modernista, podem até suprir necessidades físicas, mas não oferecem maior amplitude para valorização da dimensão humana. A demanda por espaço social é aquela que reivindica que a criança participe da vida da cidade”, dizem.

Os autores complementam: “A participação da criança na construção de relações de poder a partir de suas próprias perspectivas e nos espaços lúdicos de seu cotidiano, assunto pouco abordado no âmbito da análise crítica, deve reconhecer nos diferentes usos do espaço público uma constante (re)negociação e constituição da política na infância”.

 

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Six Sections / Studio Link-Arc. Foto: Cortesia de Studio Link-Arc.

 

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The Cuddly Playground / BudCud + Iza Rutkowska. Foto: BUDCUD.

 

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The Playground / Architensions. Foto: Michael Vahrenwald.

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