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Mulheres pretas têm 91% menos chances de atingir faixas mais altas de renda na Arquitetura e Urbanismo em São Paulo

Levantamento evidencia que mulheres brancas podem ter melhores oportunidades que pessoas pretas, mas ainda em desvantagem em relação a homens brancos

 

Segundo o estudo Diversidade na Arquitetura e Urbanismo no  Estado de São Paulo, realizada pelo Cebrap por encomenda do CAU/SP, uma mulher preta arquiteta e urbanista tem 91% menos chances de alcançar as faixas de renda média-alta da profissão do que um homem branco com perfil educacional equivalente no estado de SP. Além disso, profissionais pretos têm 76% menos chances de atingir as mesmas faixas de renda, mesmo quando equiparados por escolaridade, idade e gênero. Já profissionais pardos têm 46% menos chances de alcançar faixas de renda média-alta em relação a brancos.

A pesquisa foi realizada com metodologia mista com 2.003 profissionais registrados no Conselho e cinco minigrupos focais com arquitetos, empregadores e representantes de entidades do setor. Segundo a pesquisa, o recorte de gênero também expõe desigualdades: mulheres brancas têm 35% menos chances de alcançar as faixas mais altas de renda em comparação com homens brancos, ainda que estejam em posição mais favorável do que homens e mulheres negros. Na média geral, a renda dos homens cis é cerca de 39% superior à das mulheres cis.

Homens amarelos, por sua vez, é o único grupo que supera os homens brancos, grupo de referência na pesquisa. Além de ter a renda média mensal maior que os demais, ainda tem aproximadamente 4x mais chances de estar nas faixas de renda média-alta em comparação a homens brancos.

Remuneração média mensal segundo gênero e raça/cor, apenas para grupos com mais de 5 entrevistas. Fonte: CAU/SP e Cebrap, 2023.

 

Pesquisa CAUSP

 

Formação e elitismo

A pesquisa indica que profissionais pardos e pretos concluem a graduação em arquitetura e urbanismo significativamente mais tarde do que brancos, em geral a partir do ano de 2011. quando políticas de acesso ao ensino superior começaram a se popularizar no Brasil. Nos grupos focais do levantamento, os altos custos do curso foram apontados como impeditivos para estudantes de menor renda, uma vez que maquetes, plotagens, softwares, deslocamento e alimentação sobrecarregam o orçamento dos alunos. Além disso, a carga horária integral e a necessidade de trabalhar para manter a graduação limitou o acesso a viagens técnicas, intercâmbios e cursos complementares. 

E o racismo se fez presente durante a formação acadêmica. De acordo com os relatos da pesquisa, os estudantes negros eram minioria nas instituições de ensino, e reprovações motivadas por preconceito foram citadas. Apenas um caso de mobilização estudante garantiu a exoneração de professor após episódio de racismo. 

No mercado de trabalho, a discriminação continuou presente. Os profissionais entrevistados pela pesquisa informaram ter vivido situações em que, em processos seletivos, os recrutadores demonstraram surpresa ao constatar que a candidata qualificada era uma mulher negra.

Por sua vez, o o canteiro de obras, contudo, é citado como espaço propício para o assédio sexual: episódios desse tipo foram relatados espontaneamente por três participantes, que mudaram de área de atuação após os incidentes.

 

Passos a seguir

Por meio da pesquisa, a CAU/SP aponta as frentes prioritárias para mitigação das desigualdades estruturais no mercado de Arquitetura e Urbanismo. A primeira delas é ampliar o acesso de estudantes negros ao mercado durante a graduação por meio de estágios com recorte afirmativo. A segunda é revisar práticas de recrutamento dependentes de redes informais.

A CAU/SP orienta ainda fortalecer mecanismos de enfrentamento ao assédio e à discriminação e institucionalizar a agenda de diversidade no CAU/SP como política permanente. A pesquisa ressalta, por fim, a importância dese incluir arquitetura africana e  trajetórias de profissionais negros e indígenas historicamente invisibilizados na matriz curricular das graduações.

 

 

 

 

 

Por Victor Hugo Felix
Imagem: Foto: Ron Lach/Pexels.

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