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Paradigma

Ser otimista e dar o bom exemplo, para Clovis Tramontina, são características essenciais de um líder.

 

Clovis Tramontina, presidente da empresa familiar que espelha seu sobrenome, acredita que um líder deve manter o pensamento positivo, ter bons relacionamentos tanto com clientes como com seus funcionários, além de ser sempre transparente e dar o bom exemplo, se quiser obter sucesso. Leia, a seguir, a entrevista exclusiva deste líder que está à frente do gigantesco conglomerado que iniciou como uma pequena ferraria e que hoje produz mais de 18 mil itens em 10 fábricas, com 7.800 mil colaboradores e exportações para mais de 120 países.

 

Clovis Tramonina - Newton Santos

 

 

 

“O comando não se faz com discursos, se faz com exemplos.”

Clovis Tramontina

 

 

 

 

 

Conte um pouco de sua trajetória.

Nasci na cidade de Carlos Barbosa [RS] e desde pequeno brincava na fábrica da família. Me formei em administração de empresas pela PUC, em 1977, e em direito na Unisinos, em 1980. Quando comecei a trabalhar na Tramontina, passei por todos os setores da área administrativa, desde telefonia até o departamento de contas, e terminei na auditoria. Mas eu gostava era da área comercial. Tive a oportunidade de ir para São Paulo em 1981, e comecei a atuar justamente com vendas, construindo ótimos relacionamentos. Em 1983 voltamos para o sul, pois minha esposa estava grávida, e comecei a introduzir o conceito de marca no vocabulário da empresa, pois senti que para atingirmos o público paulista era necessário investir na imagem da Tramontina como tal. Fizemos propagandas e campanhas na televisão, pois até então a Tramontina não acreditava nesse tipo de veículo, circulávamos apenas na mídia impressa. Naquela época migrei para o marketing, onde também descobri uma grande paixão. Em 1991 eu e o Eduardo Scomazzon – atualmente diretor do conselho da Tramontina e filho de Ruy Scomazzon, um dos conselheiros da empresa e sócio de meu pai [Ivo Tramontina] desde 1949 –, fomos para o Japão durante 20 dias para aprendermos sobre algumas técnicas nipônicas [Just In Time, Circuitos de Controle de Qualidade (CCQ), Troca Rápida de Ferramentas (TRF)] e em 1992 assumimos, respectivamente, os postos de presidente e vice-presidente da Tramontina. Assim que abracei essa responsabilidade, comecei a mostrar a Tramontina para fora, pois antes a marca era fechada em si mesma. A transição não foi fácil, já que meu pai e seu sócio tinham pensamentos diferentes, mais tradicionais. Para eles, vender era uma consequência; para mim, não. Antigamente, tudo que se produzia era vendido, nós tínhamos cotas máximas de comercialização, mas os tempos mudam.

 

Como nasceu a empresa?

A Ferraria Tramontina foi criada em 1911 pelo meu avô, Valentin Tramontina, que começou a trabalhar quando tinha 18 anos. Ele morava no interior do Rio Grande do Sul e ouviu falar que a ferrovia havia chegado a Carlos Barbosa; como era artesão e fazia canivetes, foi até a cidade, pois o trem era sinal de progresso e de que as vendas para turistas dariam certo lucro. Ele faleceu em 1939, depois de perder dois de seus três filhos. De 1939 até 1949, durante a Segunda Guerra Mundial, minha avó [Elisa De Cecco Tramontina] e meu pai, que tinha 14 anos na época, ficaram responsáveis pela empresa, que contava com 13 funcionários e produzia apenas facas e canivetes. Meu pai tinha problemas fiscais, então a minha avó procurou Ana Scomazzon, sua conhecida, porque seu filho, Ruy, era formado em economia e poderia ajudar na contabilidade, o que efetivamente aconteceu. Em1955, depois de tudo estar organizado, foi feita uma sociedade meio a meio entre as famílias Tramontina e Scomazzon. A partir daí, dois homens completamente diferentes acreditaram em algumas coisas básicas: em uma única marca, nas pessoas e em sua capacitação. Hoje temos 7.800 empregados e ainda somos uma sociedade entre duas famílias.

 

O que é ser um líder?

Um bom líder deve ser uma pessoa verdadeira, transmitir aquilo no que acredita com transparência, ser um exemplo e saber administrar a liderança. Precisa ter clareza de que o comando não se faz com discursos, se faz com exemplos. Ou seja, se digo que é necessário trabalhar, devo trabalhar; se falo em economia, necessito economizar. Outra coisa que acho importante em um líder é acreditar nas pessoas. Assim é possível trabalhar em equipe; você não faz nada sozinho, toda atuação e projeto devem ser desenvolvidos em grupo, e não exclusivamente pelo líder. Pois ele não deve aparecer, uma vez que as pessoas fazem por ele, pois elas acreditam naquilo que ele prega.

 

Como um líder mantém a equipe produtiva, motivada e unida?

Ele deve ser um otimista, com pé no chão, e acreditar em coisas positivas ao invés de valorizar o que é negativo. Outro ponto significativo é saber que os cenários são passageiros e seus objetivos são permanentes, pois com essa mentalidade se chega onde se quer junto a seus funcionários.

 

Como um líder identifica um talento?

Sou bastante perspicaz quanto a isso. É possível identificá-lo por meio de pequenos e sutis sinais, como, por exemplo, a forma de caminhar, de agir, de conversar, de se portar. Estou sempre muito atento e observando os detalhes. É sensacional quando você descobre um talento, pois às vezes um sujeito de dentro da fábrica cresce na empresa; isso é ótimo e muito gratificante.

 

Quais os principais desafios de um líder?

Ser verdadeiro e transparente com a equipe, ao mesmo tempo em que nunca se deve demonstrar fraqueza. Além disso, é necessário gostar de gente e se dar bem com as pessoas. No passado, a liderança era a da força; hoje, é sinônimo de bons relacionamentos.

 

Como um líder deve gerenciar as crises?

A ideia é enfrentá-las. Em meio à crise de 2008 e 2009, fui para o refeitório de nossa principal empresa com toda a equipe de vendas, peguei o microfone e falei para 2 mil pessoas que estávamos em uma crise da qual os funcionários não tinham culpa de estarem participando. Expliquei a todos que era um problema financeiro, que seria momentâneo e que conseguiríamos passar por aquilo. Comuniquei que não demitiríamos ninguém, mas que se alguém quisesse sair deveria sentir-se à vontade para isso, pois assim que recuperássemos o mercado os readmitiríamos. Dos 300 que saíram, muitos voltaram depois da crise; os que ficaram se dedicaram muito para ajudar a empresa a superar o momento difícil, pois com menos funcionários aumentamos a produção. Um líder deve ser verdadeiro, mostrar a crise com transparência ao invés de escondê-la. E também deve apontar o caminho de recuperação à sua equipe.

 

Qual o segredo da Tramontina para ser reconhecida no mercado?

Acredito que são os constantes investimentos destinados à modernização das unidades fabris, a inovação em produtos e processos e os aportes na capacitação das pessoas.

 

Quais são seus hobbies?

Sempre gostei muito de futebol, mas nunca fui um bom jogador, então montei um time de futsal que se chama Fundação Carlos Barbosa. Ele é bicampeão mundial, tem cinco títulos nacionais e a Tramontina é um dos patrocinadores. Não é só o futsal que me encanta, também gosto muito de futebol de campo: não perdi nenhuma Copa do Mundo desde 1978 e meu time do coração é o Internacional de Porto Alegre, que infelizmente hoje está na segunda divisão do campeonato. Além disso, gosto sempre de estar junto de amigos e de familiares, e eles costumam dizer que, para mim, “onde tem gente, está quente”.

 

 

 

Por Marina Samaritano
Imagens
Newton Santos
Matéria publicada em Revista CM 176

 

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