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Gregori Warchavchik, um pioneiro da arquitetura modernista

Com uma arquitetura livre de ornamentos e legados do passado, Gregori Warchavchik foi um dos pioneiros da arquitetura modernista brasileira.

Espírito de vanguarda

 

Por Luciana Porfírio


Com uma arquitetura livre de ornamentos e legados do passado, Gregori Warchavchik foi um dos pioneiros da arquitetura modernista brasileira.

 

Havia-se passado apenas um ano da Semana de Arte Moderna de 1922 quando desembarcou no Brasil o arquiteto Gregori Warchavchik. Considerado um dos pioneiros da arquitetura modernista no País, ele nasceu em 1896, na Ucrânia, e se formou no Instituto Superior de Belas-Artes, em Roma, na Itália. Trabalhou com seus ex-professores, Marcello Piacentini e Vincenzo Fasolo, e em terras brasileiras encontrou um terreno fértil para as suas ideias vanguardistas, com projetos que até hoje se mostram atuais.

 

Veio contratado pela Companhia Construtora de Santos, na qual atuou durante três anos e meio. Após se casar com a paisagista Mina Klabin, da milionária família de construtores, em 1927, inseriu-se na sociedade paulistana e nos círculos modernistas, abrindo seu próprio escritório. Segundo o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), José Tavares Correia de Lira, até a morte de Warchavchik, em 1972, sua carreira soma quase 50 anos, período em que aconteceram processos e transformações na arquitetura.

Localizada na Rua Barão de Jaguara, na Mooca, a Vila Operária é um conjunto de sobrados geminados construídos em 1929 para funcionários da Klabin e outras fábricas locais. Com casas dispostas no alinhamento do lote, integra-se à paisagem industrial. Sua planta previa sala de estar à frente, cozinha e banheiro ao fundo e, no piso superior, dois quartos.

“Gregori estava próximo a muitos artistas modernos e participou de um processo gigantesco de urbanização que o Brasil viveu ao longo do século XX. Seus trabalhos dialogam diretamente com a questão do adensamento das cidades, da verticalização das construções e da criação de novos espaços de moradia, principalmente em São Paulo, a cidade que mais cresceu no Brasil”, explica o professor, que é autor do livro “Warchavchik: Fraturas da Vanguarda”, que apresenta um estudo sobre a vida, projetos e métodos de trabalho do arquiteto ucraniano.

 

As ideias de Gregori seguiram além da prancheta, ocupando espaço também na imprensa. Em 1925, publicou o primeiro de seus textos, chamado “Futurismo?”, no jornal italiano de São Paulo “Il Piccollo”, depois traduzido e republicado no “Correio da Manhã” com o título “Acerca da Arquitetura Moderna”. “Essa foi a forma que ele encontrou para colocar a questão do modernismo em debate”, explica seu neto – e também arquiteto – Carlos Eduardo Warchavchik.

 

Ele se lembra pouco do avô, pois na época em que Gregori faleceu, Carlos tinha apenas 9 anos. “Foi uma convivência curta, de criança. Lembro de alguns flashes e de seu sotaque russo. Também me recordo dele na casa Modernista, quando tomávamos chá às cinco da tarde aos domingos”, conta. O local ao qual ele se refere é a residência que Warchavchik construiu para a família em 1928, considerada o primeiro exemplar da arquitetura modernista no Brasil – e uma das obras favoritas de seu neto.

 

Localizada na Rua Santa Cruz, na Vila Mariana, hoje é sede do Parque Modernista. Formada por volumes prismáticos brancos e destituída de qualquer ornamentação, a obra merece destaque também pelo jardim, projetado pela esposa Mina, que se tornou um dos primeiros no uso de espécies tropicais. A obra foi tão impactante para a época que, para obter aprovação na prefeitura, o arquiteto apresentou uma fachada ornamentada, e quando concluiu a obra, alegou falta de recursos para completá-la.

O arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik construiu esta casa, na Vila Mariana, para a sua família em 1928: ela é considerada o primeiro exemplar da arquitetura moderna no Brasil. Destituída de ornamentação e formada por volumes prismáticos brancos, traz um jardim projetado por sua esposa, Mina Klabin, com o uso de espécies tropicais, o que se contrapunha ao volume branco bauhausiano.

 

Outra obra importante de seu legado é a casa da Rua Itápolis, no Pacaembu, que hoje é residência de Carlos Eduardo. Projetada também para a família, ela traz um resumo dos princípios nos quais o arquiteto acreditava: economia e racionalidade das linhas, o uso de iluminação e ventilação naturais e a integração dos espaços. Inaugurada em 1930 com uma exposição de arte modernista, foi visitada durante a sua construção por Le Corbusier, que elogiou a beleza do muro curvo nos fundos da casa. Vale lembrar que Warchavchik era admirador e seguidor das ideias do arquiteto franco-suíço.

A casa da Rua Itápolis, no Pacaembu, foi inaugurada em 1930 com uma exposição de arte modernista. “Formada por linhas retas, a fachada contrastava com os seus volumes e sua simplicidade; já as aberturas e planos suavizavam a sua geometria”, explica o arquiteto Paulo Mauro de Aquino, responsável pela organização do acervo de Gregori.)

 

Com isso, Gregori foi convidado por ele para ser o delegado da América do Sul nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam’s). Outra passagem interessante de sua vida foi quando o arquiteto Lucio Costa o chamou para lecionar na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro, em 1931. “Gregori foi fundamental para o movimento internacional modernista, destacando-se em um pequeno grupo que incluía nomes bem conhecidos, como Rino Levi, Flávio de Carvalho e Jayme da Silva Telles”, diz o professor.

 

A parceria com Lucio Costa renderia também uma sociedade: a dupla montou uma pequena construtora no Rio. Entre os projetos, está a Casa Schwartz e uma vila operária no bairro portuário da Gamboa. Gregori também fez outros importantes trabalhos na capital carioca, como a reforma de uma cobertura no Edifício Olinda, na Avenida Atlântica, e a construção da Casa Nordschild (que foi demolida).

 

Em São Paulo, algumas obras suas também não existem mais. É o caso de casas nas Ruas Melo Alves e Estados Unidos. Porém, o professor José Lira assinala um projeto ainda de pé, e que ele admira: o Edifício Mina Klabin, na Alameda Barão de Limeira, em Campos Elíseos. “O trabalho faz parte de uma primeira geração de edifícios residenciais e apartamentos na capital paulista. Apesar de hoje possuir uma escala modesta, a conformação do lote, da quadra e a sua escala chamam a atenção, além do arquiteto ter adotado detalhes extremamente graciosos, como a sua fachada”, ressalta.

Já o conjunto de casas da Rua Bertha, na região da Vila Mariana, foi erguida para atender a demanda por habitação de pessoas um pouco mais abastadas, de uma São Paulo que crescia vertiginosamente. Na planta, chama a atenção a marquise retilínea que perpassa por todas elas.

 

Carlos Eduardo mantém um acervo sobre o avô, com desenhos, plantas, móveis e objetos desenhados pelo arquiteto, além de retratos de sua autoria, já que ele tinha como hobby a fotografia. “As pessoas ainda hoje tem interesse sobre a sua história. Gregori Warchavchik continua sendo uma referência”, finaliza Carlos Eduardo.

 

Imagens: Coleção Gregori Warchavchik

redacao@editorialmagazine.com.br

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