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Cliente de si mesmo

Com um trabalho de traços fortes e espontâneos, Sergio Rodrigues foi um dos maiores nomes do móvel brasileiro. Aqui, nossa homenagem ao mestre, que completaria 90 anos.

 

 

 

 

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A poltrona Mole (75 x 110 x 100 cm), nos traços do mestre. Ela foi criada com estrutura de madeira de lei maciça torneada, com percintas de couro sola que sustentam os almofadões do assento, encosto e braços. Este verdadeiro clássico é de 1957.

 

“Eu digo sempre: criação é com amor. Tem que acreditar naquilo que você faz. Você chega lá”. As palavras de Sergio Rodrigues à revista CM (edição 132) refletem bem sua personalidade, ideologia e (porque não?) verdadeiro amor. Carioca, nascido em 22 de setembro 1927, era filho do ilustrador Roberto Rodrigues, de quem herdou a aptidão pelo desenho, e da cantora Elsa Rodrigues, que o educou para apreciar as boas artes. Suas tardes de infância eram sempre passadas na marcenaria do tio, onde construía cada um de seus brinquedos com madeira – em sua maioria aviões, carros e barcos, suas fascinações –, antes de partir para seus primeiros contatos com desenho de mobiliário.

 

Apesar de apaixonado pelo mundo das artes, Sergio cogitou se tornar projetista da Força Aérea Brasileira. A faculdade de Arquitetura e Urbanismo veio em segundo plano, mas foi uma cartada certeira. Formou-se em 1951 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e, no mesmo ano que concluiu o curso, foi convidado para participar do projeto do Centro Cívico de Curitiba (PR) com os arquitetos David Azambuja, Olavo Redig de Campos e Flávio Regis do Nascimento. Foi ao dedicar-se à criação de móveis, porém, que sua paixão se revelou. “A produção de mobiliário está na tradição brasileira, e naquele momento Sergio já trazia algumas nuances de sua identidade tanto no desenho da peça quanto no material empregado. Ele fez uso de uma combinação bastante nacional, que é o encontro do couro, da palhinha e da madeira”, observa a professora Sueli Garcia, coordenadora do curso de Design de Interiores da Belas Artes. Segundo ela, Sergio também possuía um traço próprio, que se contrapunha às linhas retas da Bauhaus. “Era como se ele desmontasse a estrutura básica da peça, que ganhava em suas mãos um acabamento arredondado e bruto, escultural. São móveis intuitivos e orgânicos”, ressalta.

 

 

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Feita em homenagem ao designer e primo Fernando Mendes, seu discípulo, a cadeira Fernando (90 x 48x 54 cm) foi criada em 2012, em duas versões: toda em madeira freijó ou com assento estofado. Tem encaixes simples e forma geométrica, ressaltando a paixão dos dois pela marcenaria.

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi dessa mente pioneira e irreverente que saíram móveis como a poltrona de descanso Diz, com ergonomia perfeita, a poltrona Beto, feita para o Palácio do Planalto, ou o banco Mocho, seu primeiro móvel, criado em 1954. A mais famosa, porém – e tida como a preferida do mestre – é a poltrona Mole, exposta no MoMA, que a aponta como a primeira poltrona tipicamente brasileira. “Tendo a rede como referência, é como se fosse um conjunto de almofadas que acolhem o corpo; não se sente nenhuma estrutura rígida. Sentar na poltrona Mole é quase um ritual”, conta a professora Sueli Garcia.

 

 

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Tida como a favorita dentre suas criações, a poltrona Mole se derivou do sofá de mesmo nome, desenhado para o fotógrafo Otto Stupakoff . Robusta e pensada para o descanso, ela foi considerada a primeira poltrona tipicamente brasileira. Um feito que lhe valeu exposição no acervo permanente de design do MoMA , em Nova Iorque.

 

 

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4 Sempre bem-humorado em suas criações, aqui temos mais uma ilustração de Sergio Rodrigues que mostra mais uma faceta da criação da poltrona Mole e sua inspiração nas redes indígenas. A ideia era ter um móvel onde as pessoas pudessem se esparramar.

 

O desenho era, de fato, seu amor – ou um de seus amores, como revelou Vera Beatriz, primeira namorada e eterna esposa de Sergio Rodrigues, em entrevista à revista CM pouco antes de falecer, em janeiro deste ano. Ela esteve a seu lado desde a adolescência e foi presidente do Instituto Sergio Rodrigues, fundado em 2012, com o objetivo de preservar o acervo do designer. “Às vezes ele acordava durante a noite, pegava o lápis e começava a desenhar algo que no futuro se tornava um móvel incrível. Era muito espontâneo nas criações e lutava muito por isso”, contou. “Sergio sempre buscou aquilo que representasse o Brasil. Ele dizia ‘eu faço o que eu gosto, eu sou o cliente de mim mesmo’, e não sofria influência do estrangeiro”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lutar por um mobiliário caracteristicamente brasileiro sempre foi sua máxima. Segundo a acadêmica, isso era uma inovação de linguagem, uma vez que a maioria dos desenhos, naquela época, se espelhava nas criações com pé palito, ao passo que Sergio não economizava na madeira e nos formatos mais avantajados. “Ele nos mostrou que o Brasil tem o suficiente para produzir algo atemporal. Seu respeito pela própria cultura é um grande exemplo até hoje”, opina Sueli.

 

 

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Uma de suas últimas criações, a poltrona Diz  (71 x 75 x 81 cm) foi lançada em 2001 e era chamada por Vera Beatriz de “poltrona Dura”, por não possuir almofadões. Com o traço característico do mestre, seu assento e encosto são em compensado moldado em dupla curvatura, folheado em madeira de lei.

 

 

 

 

 

 

 

Criada em 1973, ano em que se casou com Vera Beatriz, a poltrona Kilin (70 x 65 x 65 cm) tem estrutura de madeira de lei maciça e encosto e assento em couro, como uma peça única. É uma homenagem à esposa, cujo apelido era “esquilinha”.

 

 

 

 

 

 

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Na poltrona Oscar (80 x 65 x 65), de 1956, vemos o uso da palhinha natural no encosto e no assento. Tem estrutura de madeira maciça e braços esculpidos com desenho anatômico. Trata-se de uma homenagem a outro grande mestre: Oscar Niemeyer.

 

 

 

 

 

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O banco Mocho (40 x 45 x 45 cm). Concebido em 1954, foi sua primeira peça industrializada e comercializada, inspirada no ‘banquinho da leiteira’. É feito de madeira de lei, em uma peça única torneada e esculpida.

 

 

 

 

 

 

 

Vera Beatriz, por sua vez, entregou o seu caráter: “ele nunca pensou no lucro. Era uma pessoa que criava e tinha amor pela beleza, e só fazia aquilo que acreditava que era certo. Ele nos deixou um legado de humildade e perseverança, de lutar pelo que é brasileiro”.

 

Para todos, fica uma palavra: saudade. E também um muito obrigado.

 

 

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Aqui, Sergio confortavelmente sentado em uma de suas criações: a poltrona Diz.

 

 

 

 

Por Marcela Millan
Imagens acervo Instituto Sergio Rodrigues
Matéria Publicada em Revista CM 178

 

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