Em todo o mundo, 44% dos domicílios destinam mais de 30% de sua renda para moradia; 3 bilhões de pessoas são afetadas pela escassez de recursos
O Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) divulgou o mais recente “Relatório Mundial das Cidades 2026 – Crise global de moradia: caminhos para ação”. O documento esmiúça as causas e consequências da escassez de moradias no mundo, além de apontar quais estratégias podem ser adotadas para superar o mau momento. A crise é caracterizada pelos preços inacessíveis, acomodações de baixa qualidade e falta de acesso a serviços urbanos essenciais como água e saneamento básico, e já afeta cerca de 3 bilhões de pessoas, quase 40% da população mundial.
De acordo com o relatório, para enfrentar a crise habitacional é preciso combinar conhecimento técnico e atuação territorial. Mecanismos de financiamento doméstico, em todos os níveis de governo, precisam ser ampliados e melhor direcionados, por meio de subsídios eficazes tanto para a demanda quanto para a oferta. Recomenda-se uma expansão substancial dos investimentos públicos em habitação social e acessível, ao mesmo tempo em que se criam incentivos para investimentos privados que ampliem a oferta habitacional, especialmente no segmento de moradias populares.
O documento enfatiza que o problema pode ser solucionado a partir da mudança de perspectiva sobre questões como favelas e assentamentos informais — tais formas de moradia precisam ter seu potencial reconhecido para que ofereçam melhores condições de subsistência, em vez de permanecerem como espaços de exclusão. A participação comunitária e a coprodução, com atenção especial à inclusão de grupos historicamente excluídos, são apontadas como soluções viáveis, tanto na formulação de políticas quanto na implementação de projetos, que por suas vez devem ser concebidos e executados em conjunto com moradores e moradoras.
Para Rayne Ferretti Moraes, chefe do escritório do ONU-Habitat para o Brasil, embora a crise da moradia tenha dimensões globais, suas soluções passam pelos territórios. “No Brasil, é fundamental fortalecer políticas urbanas que reconheçam as diferentes realidades das cidades e promovam o acesso à moradia adequada como parte do direito à cidade, e temos muitos bons exemplos disso no país”.

A crise da moradia em números
No mundo todo, 44% dos domicílios destinam mais de 30% de sua renda para moradia. A África Subsaariana é a região que mais sofre, com 55% de inquilinos e inquilinas sob sobrecarga financeira. O relatório estima que, em todo o mundo, as cidades absorvam 2 bilhões de habitantes adicionais até 2050, o que poderá intensificar o aumento dos preços dos terrenos, a desigualdade e os impactos da mudança do clima.
Os preços dos imóveis aumentaram mais rápido do que a renda na maior parte das regiões do mundo. Globalmente, a relação entre preço da moradia e renda passou de 9,3 em 2010 para 11,2 em 2023, atingindo 16,8 na Ásia Central e Meridional. Em 2023, apenas 25,5% dos solicitantes conseguiram obter um financiamento habitacional em nível global. Em algumas regiões da África Subsaariana, esse índice caiu para apenas 1%, refletindo mercados hipotecários ainda em estágio inicial de desenvolvimento.
“É necessário um novo contrato social para a moradia adequada e acessível, um senso de responsabilidade compartilhada entre governos, setor privado e comunidades para mobilizar investimentos e alinhar as funções sociais e econômicas da habitação” – Ana Cláudia Rossbach, subsecretária geral das Nações Unidas e Diretora Executiva do ONU-Habitat.
O estudo demonstra que os efeitos da crise são agravados por mudanças demográficas, pressões ambientais e transformações nas condições econômicas, ampliando desigualdades, pobreza e vulnerabilidade. Além disso, as violações dos direitos humanos estariam ligadas à crise global de moradia, uma vez que muitos países falham em prevenir deslocamentos, despejos forçados, insegurança na posse da terra, situação de rua e condições inadequadas de moradia. Em 2023, catástrofes climáticas causaram perdas de US$ 280 bilhões, e de acordo com projeções, eventos climáticos extremos destruirão 167 milhões de moradias até 2040.

Por Victor Hugo Felix
