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Com escritório em São Paulo e Xangai, na China, Fernando Brandão vive arquitetura 24h por dia

"Descobri outra maneira de fazer arquitetura, que poderia ajudar as pessoas".

Em 1982, ao visitar o Centre Pompidou, em Paris, em sua primeira viagem de mochilão pela Europa, o então estudante de arquitetura Fernando Brandão ficou impressionado com a relação da obra com a cidade. “Descobri outra maneira de fazer arquitetura, que poderia ajudar as pessoas”, lembra. Porém, o que mais lhe chamou a atenção no complexo arquitetônico foi uma exposição sobre a China. Aquele foi o seu primeiro contato com o país que se tornaria praticamente o seu segundo lar, cerca de 30 anos depois.

 

Paulistano, Fernando cresceu no bairro de Santo Amaro. É filho mais velho de um médico e de uma nutricionista e tem duas irmãs, uma administradora e a outra pedagoga. Na infância e na adolescência gostava tanto de desenhar e pintar (inclusive telas com tinta a óleo), que pensou em ser artista plástico! Mas seu pai não gostou nada da ideia. Acabou escolhendo a arquitetura, que lhe permite desenhar com sentimento de artista espaços para o bem viver.

 

Com o desafio de se apropriar de um ambiente que ninguém ainda havia usado – as arquibancadas do Jockey Club de São Paulo – Fernando criou o Espaço X3, na Casa Cor Office. Montado em uma estrutura de ferro, um cubo de vidro equipado com luzes de LED dá vida a um excêntrico escritório.

Com o desafio de se apropriar de um ambiente que ninguém ainda havia usado – as arquibancadas do Jockey Club de São Paulo – Fernando criou o Espaço X3, na Casa Cor Office. Montado em uma estrutura de ferro, um cubo de vidro equipado com luzes de LED dá vida a um excêntrico escritório.

Estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Santos, Fernando subia e descia a serra todos os dias, entre a cidade litorânea e a capital paulista. Naquela época, o estágio que mais o marcou foi no escritório do arquiteto Sergio Giudice, em São Paulo. Além disso, durante as férias, aproveitava as visitas à sua família no Rio de Janeiro para estagiar com o arquiteto Luiz Paulo Conde, recentemente falecido, que também foi prefeito da capital fluminense. Certa vez, ele o levou para conhecer um dos seus projetos: a casa de Ayrton Senna, em Angra dos Reis.

 

Fernando lembra com carinho de outra passagem importante de sua trajetória, quando entrevistou o arquiteto Oscar Niemeyer para o seu trabalho de conclusão de curso. “Na minha tese questionei tudo o que me ensinavam, a arquitetura dogmática, modernista e racionalista, que eu não gostava. Quis conversar ‘com o pai de todos’ e, para a minha surpresa, Niemeyer disse que cada um deveria fazer o próprio estilo. Foi a minha liberdade, meu green card”, comenta, rindo. Hoje, considera o mestre uma referência.

 

Após a formatura, com escritório em parceria com alguns colegas de faculdade, Fernando fazia trabalhos para os segmentos promocional, corporativo e comercial, até que veio a grande guinada: ele foi contratado pela Livraria Cultura para repaginar as suas lojas, entre elas a do Conjunto Nacional, em São Paulo, em 2007. “O escritor português José Saramago, Nobel de Literatura, fez uma crônica sobre a livraria e a sua arquitetura. Considero o maior prêmio que recebi na vida”, afirma.

 

Em um dos seus projetos mais conhecidos, o da rede de lojas da Livraria Cultura, Fernando Brandão usou cores intensas e muita madeira no mobiliário, traduzindo-se em aconchego. Coincidência ou não, o arquiteto escolheu o dragão, um símbolo chinês, para colaborar com o clima lúdico, antes mesmo de trabalhar no oriente. Nesta imagem, a unidade do RioMar Shopping, em Recife (PE).

Em um dos seus projetos mais conhecidos, o da rede de lojas da Livraria Cultura, Fernando Brandão usou cores intensas e muita madeira no mobiliário, traduzindo-se em aconchego. Coincidência ou não, o arquiteto escolheu o dragão, um símbolo chinês, para colaborar com o clima lúdico, antes mesmo de trabalhar no oriente. Nesta imagem, a unidade do RioMar Shopping, em Recife (PE).

Foi neste projeto que o arquiteto consolidou o seu estilo, que ele próprio define como neobarroco. “O barroco está na raiz do Brasil. O brasileiro é lúdico, divertido, alegre e carnavalesco. Não somos minimalistas. A Livraria Cultura reflete isso e é um sucesso comercial. Milhares de pessoas vão lá todos os dias. Sua arquitetura consegue ser aconchegante e democrática, recebendo desde o presidente da república a um office boy. Precisamos fazer cidades inclusivas, com os valores da gente”, defende.

 

Mas, como ele foi parar na China? Tudo começou com uma visita à Expo Sevilha, em 1992. Apaixonado pelo grandioso evento, no qual cada país procurar apresentar o melhor da sua arquitetura, Fernando começou a estudar o tema e a visitar outras exposições, como a de Hannover, em 2000. “Quando saiu o concurso para o pavilhão do Brasil na Expo Xangai 2010, fiquei alucinado”, conta. Com uma fachada com trama de madeira, que remete às favelas, o arquiteto ganhou o concurso e o pavilhão ficou entre os cinco mais visitados.

 

Com 2.000 m², o pavilhão do Brasil na Expo Xangai 2010 teve como objetivo tornar o país mais conhecido entre os chineses. Com fachada em tramas de pinho, que remete às favelas, trouxe em seu interior painéis que contam a história de quatro brasileiros, além de mostrar imagens das cidades-sede da Copa 2014.

Com 2.000 m², o pavilhão do Brasil na Expo Xangai 2010 teve como objetivo tornar o país mais conhecido entre os chineses. Com fachada em tramas de pinho, que remete às favelas, trouxe em seu interior painéis que contam a história de quatro brasileiros, além de mostrar imagens das cidades-sede da Copa 2014.

A exposição abriu caminho para um convite irrecusável: lecionar na China, graças a uma parceria com a entidade Beijing De Tao Masters Academy, em Xangai. Os laços com o país se tornariam ainda mais estreitos com a abertura de um escritório próprio na capital, em 2012. Por isso, ele viaja ao país do dragão de três a quatro vezes por ano. “Precisei me reinventar e convidei o arquiteto Thiago Passos, que já havia trabalhado comigo, para abrir o YBYPY Architecture, nossa nova marca. Em Tupi-Guarani, YBY significa terra ou mundo, e YPY, primeiro ou origem. Além disso, tem nossas iniciais, B de Brandão e P de Passos. Na China eles dão muito valor para as raízes”, comenta.

 

04 e 05. De uso misto, o projeto Kunshan West Gate, na China, conta com uma estrutura que remete à forma de grandes portais. Ao lado, o croqui do Shenzhen Low Carbon City‏, trabalho que o arquiteto inscreveu em um concurso realizado pela prefeitura da cidade de mesmo nome. Contando com hotéis, comércio, indústrias de tecnologia, além de edifícios residenciais, traz painéis solares bem visíveis, com o objetivo de se tornar uma referência na região.

De uso misto, o projeto Kunshan West Gate, na China, conta com uma estrutura que remete à forma de grandes portais.

Fernando brinca que seu escritório trabalha 24 horas por dia. Também pudera. Em sua prancheta do outro lado do mundo estão projetos para a cadeia de restaurantes Latina Grill, o Kunshan West Gate (mix de centro comercial, hotel e edifício residencial) e o Shenzhen Low Carbon City (outra construção de uso múltiplo, realizada em parceria com o arquiteto de Luxemburgo François Valentiny). Já no Brasil, está criando uma novíssima Livraria Cultura no Shopping Fashion Mall, no Rio de Janeiro, um escritório, além de várias casas e dois trabalhos gráficos. Aliás, Fernando e seu sócio Thiago assinam o novo projeto gráfico da CM.

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Croqui do Shenzhen Low Carbon City‏, trabalho que o arquiteto inscreveu em um concurso realizado pela prefeitura da cidade de mesmo nome. Contando com hotéis, comércio, indústrias de tecnologia, além de edifícios residenciais, traz painéis solares bem visíveis, com o objetivo de se tornar uma referência na região.

Mas o trabalho que faz seus olhos brilharem neste momento está voltado à área de educação. Fernando foi convidado pelo governo chinês para participar de uma palestra sobre a “escola do futuro”, que tem como uma de suas premissas a conectividade. “O governo vai redefinir as escolas na China e eles têm nada menos que 550 mil estabelecimentos educacionais. Por coincidência, fui convidado por uma ONG de São Paulo para pensar sobre o mesmo assunto, pois o governo pretende fazer uma grande reforma nas escolas estaduais”, explica.

No projeto idealizado para a unidade do SESC de Guarulhos, Fernando pensou em criar uma construção que se destacasse em uma região predominantemente industrial. Um espaço que se mostrasse de portas abertas à comunidade.

No projeto idealizado para a unidade do SESC de Guarulhos, Fernando pensou em criar uma construção que se destacasse em uma região predominantemente industrial. Um espaço que se mostrasse de portas abertas à comunidade.

Pai de duas meninas, o arquiteto aproveitou a sua última viagem à terra do dragão para visitar a filha mais velha, que estuda restauro de arte na cidade de Glasgow, na Escócia. Já a caçula mora em São Paulo e está no colegial. É nesses períodos que Fernando aproveita para descansar e conhecer novos lugares, como Cingapura, Taiwan, Hong Kong, entre outros. “Já fui 16 vezes para a China. É como se tivesse passado um mês inteiro dentro de um avião”, orgulha-se. Ele confessa que não fala mandarim. “Costumo dizer que em cada viagem eu aprendo uma palavra! Procuro melhorar o meu inglês. Vou acabar uma coisa para começar outra”, finaliza.

 Imagens: Charlie Xia, Eder Bruscagin e divulgação

redacao@editorialmagazine.com.br

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