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A proposta dos irmãos Roberto para o plano-piloto de Brasília brilha pela sua humanidade

O modernismo chegou com tudo ao Brasil durante a primeira metade do século passado e deixou um legado importante nas artes e até no urbanismo. Ícone da arquitetura moderna, Le Corbusier escreveu “Urbanisme”, livro que

O modernismo chegou com tudo ao Brasil durante a primeira metade do século passado e deixou um legado importante nas artes e até no urbanismo. Ícone da arquitetura moderna, Le Corbusier escreveu “Urbanisme”, livro que serviu de guia para boa parte dos projetos inscritos no concurso do plano-piloto de Brasília, que aconteceu nos anos de 1950. O trabalho vencedor, de Lúcio Costa, foi um deles. Não há dúvidas sobre os pontos positivos desse projeto. A Brasília de Lúcio é organizada, funciona e causou o maior furor com seu formato de avião. Aliás, a preocupação com a beleza da cidade vista do céu tem tudo a ver com esse jeito moderno de fazer cidades como obras de arte.

 

Isso, porém, faz com que a escala humana seja, digamos, deixada um pouco de lado, causando tanto incômodo que mais tarde surgiu um movimento chamado placemaking, que ganha força como grande tendência nos dias atuais. Outro problema é o privilégio do carro sobre o pedestre. A máquina vira item obrigatório de sobrevivência e as grandes vias transformam o espaço urbano em um lugar para se percorrer, não para ocupar. Mas o carro, assim como o avião, transmitia a mensagem de progresso que o então presidente Juscelino Kubitschek tanto queria passar aos brasileiros.

 

Detalhe de um trecho junto à margem do Lago Paranoá. Tomando partido da vista e da beleza do local, foi previsto um passeio à beira d’água, com hotéis e centros de compras anexados. Além de pontos de uso público, foram reservadas áreas para iate clubes, embaixadas e grandes residências.

Detalhe de um trecho junto à margem do Lago Paranoá. Tomando partido da vista e da beleza do local, foi previsto um passeio à beira d’água, com hotéis e centros de compras anexados. Além de pontos de uso público, foram reservadas áreas para iate clubes, embaixadas e grandes residências.

 

Há quem diga que a escolha do projeto foi influenciada por outros fatores, como, por exemplo, a grande amizade que Lúcio Costa tinha com Oscar Niemeyer. Além de ser um dos jurados, o arquiteto tinha grande influência e era conhecido como parceiro de Juscelino desde quando este ainda era governador de Minas Gerais. “Em matéria de urbanismo, Juscelino era ignorante, queria que o Niemeyer fizesse tudo, não só os prédios. Mas o Niemeyer explicou que era preciso contratar um urbanista e indicou o Lúcio Costa. Mas, para não dar muita bandeira, tiveram a ideia de fazer esse concurso, que foi um fingimento. Lúcio era carta marcada”, afirma Márcio Roberto, herdeiro dos irmãos Roberto, do escritório MMM Roberto, que ficaram em terceiro lugar no certame.

 

Também arquiteto, Márcio é filho de Maurício e sobrinho de Marcelo e Milton Roberto, importante trio de arquitetos daquela época que projetou, entre outros, o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. “Muitos urbanistas nem entraram no concurso porque sabiam o que estava acontecendo, sabiam que não iam levar. Mas o Marcelo, que era um urbanista excepcional, falava que queria causar incômodo, mostrando um projeto notavelmente superior. O Oscar era amigo deles, mas depois desse concurso a relação ficou estremecida e perderam o contato”, narra Márcio Roberto.

 

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De formato circular-hexagonal, cada unidade urbana abrigaria um centro, o coração da comunidade, um espaço vital com todo tipo de estabelecimento comercial, como bancos, bares, lojas, farmácias e delegacias, além de espaços reservados para prédios de saúde, educação e lazer.

Segundo o arquiteto Milton Braga, que reuniu no livro “O Concurso de Brasília”, da editora Cosac Naify, documentos e material dos sete projetos finalistas, os irmãos Roberto apresentaram um trabalho minucioso e extenso, com mais de trinta pranchas com desenhos detalhados e muitos dados, como a previsão de crescimento populacional e planejamento agrícola. “Eles imaginaram uma estrutura cujo tamanho poderia ser aumentado em até 100%, sem perder suas características básicas”, afirma. O trio criou um sistema que chamou de “federação de unidades urbanas”, que seria composto originalmente por sete minicidades, todas idênticas, de formato circular-hexagonal. Autossuficientes, cada uma contaria com seu próprio centro comercial, com estabelecimentos de trabalho, serviços, saúde, educação e recreação. Devido ao tamanho enxuto – para definir o raio, fixaram a distância de 1.200 metros –, seria possível chegar ao coração dessas unidades em 15 minutos a pé, dispensando o uso de automóveis.


Apesar dessa proximidade, Milton afirma que o trio não queria que as pessoas se amontoassem. “Eles adotaram a densidade de 72 mil habitantes de diferentes classes sociais em cada uma das sete unidades urbanas”, observa. O programa contava com diferentes tipos de moradias para satisfazer as necessidades da população, com casas individuais, geminadas e edifícios de até 17 andares.

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O projeto era tão detalhado que designava até o tipo e os locais exatos dos estabelecimentos que iriam atender cada unidade habitacional. Aqui, nesta ampliação de um dos setores, estão previstos igreja, auto mecânica, barbearia, quitanda e clube recreativo ao lado da zona residencial.

“O projeto ousou nas propostas, foi destacado pelo júri do concurso e colocou a discussão urbana como um novo modo de estruturação das cidades e do poder político”, afirma o arquiteto Jeferson Tavares, que colheu informações dos 26 projetos participantes, além do vencedor, para o livro “Projetos para Brasília”, editado pelo Instituto do Patrimô- nio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

 

A Brasília dos irmãos Roberto ocuparia toda a margem do Lago Paranoá, com o Parque Nacional na zona leste, onde iriam se concentrar os prédios dos três poderes, além da residência presidencial, entre outros equipamentos. “A cidade deveria ser construída entre sete e dez anos. Todas as unidades seriam interligadas por parques públicos”, relata Jeferson. Considerado um projeto para pessoas e não para máquinas, a ideia dos irmãos Roberto foi uma das poucas apresentadas no concurso que não seguiam os princípios do modernismo.

 

Curiosamente, a ideia do trio é muito similar ao que Oscar Niemeyer julgava ideal. “Eu acho que a cidade tem que ser multiplicável. Ela deve ter uma densidade prefixada, e quando chegar naquele ponto, é uma outra cidade que surge do lado, com espaço de natureza vazia entre uma e outra”, afirmou o mestre em entrevista feita durante a década de 1980 ao arquiteto Fernando Brandão, publicada pela revista “Projeto” em 2007.

 

Imagens: Cosac Naify e divulgação

redacao@editorialmagazine.com.br

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