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08/09/2010
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¿Hay gobierno?

Não pergunte se o título indica que nosso entrevistado seja um típico profissional “do contra” – apenas reflete um lado muito forte da personalidade do arquiteto Olivo Gomes, 36 anos: a transparência com que despeja suas convicções,
muitas delas opostas a padrões estabelecidos. O “rosto de menino” não compromete a seriedade com que conduz seu escritório; o profissional tampouco perde oportunidade para criticar posturas que considera nocivas ao meio.

Postura, aliás, é palavra recorrente neste diálogo. “Ouvimos no mercado que a maioria dos profissionais é contra a RT [reserva técnica], mas eu te digo que 100% dos profissionais a recebem. Há uns nove anos fiz uma pesquisa
entre fornecedores da AsBEA [Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura] para saber como o mercado funcionava em relação ao tema, e, segundo esses fornecedores, apenas dois arquitetos não trabalhavam com RT”.

O arquiteto entende que a questão deveria deixar de ser um tabu e que caberia à AsBEA discutir outros temas, não sua recriminação. “Ouvi muita gente lá contra a RT. Penso que deveríamos ocupar o tempo da entidade em busca de outras ferramentas, até para atuar juridicamente contra as construtoras que não indicam nas placas de obra espalhadas pelo país o nome do escritório de arquitetura que assina o projeto”, alfineta.

Ele dá como exemplo dessa falta de foco o guia lançado em 2003 com uma metodologia de cálculo para precificar projetos a partir de um determinado fator. “Procurei no site o valor atualizado, mas não havia nada. Na AsBEA, fui informado que esse fator estava defasado há quatro anos. Quer dizer, bastaria ter definido um índice qualquer para a atualização que a própria metodologia deles propõe, ao invés de brigar contra a RT”.

Olivo entende que a entidade poderia rever seu papel. “Se você me perguntar hoje o objetivo [da AsBEA], não sei, porque ela volta ao seu início, gerando um evento para buscar patrocínio, que é usado para novos eventos, que vão em busca de mais patrocínios... não funciona... Se quero captar trabalho no Oriente Médio, não posso ir acompanhado pelos concorrentes. É mais produtivo programar três dias de viagens e agendar 15 reuniões. A AsBEA
deveria assumir sua função patronal e lutar pela valorização das empresas associadas.

“Ninguém vai comprar um Candusso, e sim o apartamento da Gafisa. Era essa a função da entidade, dar nome aos bois. Por que não contrata uma agência de publicidade para “vender” arquitetura?”, questiona. Olivo enumera o que considera faltar à AsBEA: foco para o escritório de arquitetura (e não para o arquiteto), substituição dos “debates da cidade” por um trabalho consistente para estimular o mercado de trabalho dos urbanistas; discussões sobre como
pagar menos impostos e gerar mais trabalho.

Que Olivo Gomes é favorável à RT, está claro. Tanto que isso fica transparente para o cliente ao ter acesso ao edital de concorrência dos seus fornecedores. “Está ali escrito, não tem o que esconder. Agora, se o discurso de combate à
RT é que ela estaria barateando nossos valores, vamos ao ponto. O que barateia um projeto é usar software pirata, é pagar [salários] abaixo do piso, é não oferecer vale-transporte...”.

Escolhas
Casado há seis anos e pai de uma filha, Olivo afirma que, se não fosse arquiteto ou administrador, seria tenista.  Parei porque não é o caminho natural se profissionalizar num esporte; o natural é estudar”.

Raros profissionais de sua geração tiveram a oportunidade que Olivo teve, pelo estreito contato com o arquiteto Rino Levi e com o paisagista Roberto Burle Marx, ambos amigos próximos de seu avô em São José dos Campos (interior de SP). Eles assinam, respectivamente, os projetos de arquitetura e paisagismo da casa onde o avô de Olivo residiu e que hoje foi transformada em museu. “Pude respirar o melhor da arquitetura nas casas por onde passei.

A influência foi tão grande que até envolveu a escolha do colégio onde estudei (o Miguel de Cervantes, em São Paulo, projeto de Rino Levi). Os primeiros passos foram dados ainda como estagiário, no escritório de José Carlos Ribeiro de Almeida, por seis meses. “Percebia o quanto o trabalho dele, financeiramente, não era prestigiado pelo cliente e sua insatisfação com o próprio layout do escritório. E ele ainda presidia o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio
Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico)”.

A etapa seguinte foi como desenhista em uma gerenciadora de projetos de grandes proporções, que durou exatos dois meses – um deles, com Olivo engessado por conta de uma tendinite. Foi quando ingressou no escritório de Sérgio Athié (então sócio de Dante Della Manna e Ivo Wohnrath) que a lesão por esforço repetitivo acabou sendo bom negócio. “Como não podia desenhar, fui para as obras, o que foi excelente”, conta.

O primeiro trabalho com escritório próprio, antes mesmo de se formar, foi ousado: implantar 12 escritórios de uma importante empresa que chegava ao país.

Realidade
Hoje, Olivo Gomes tem um desenho específico para seu escritório e não participa mais de concorrências. “Decidimos encerrar essa modalidade, escolhendo apenas os melhores clientes; o escritório precisou encolher e umas 10 pessoas saíram, mas tudo de forma planejada.

Descobri que o volume de concorrências não altera nossa receita”. Sua política é manter o que chama de clientes saudáveis – que abrem apenas uma concorrência de honorários. “Se um cliente pede uma concorrência e exige um projeto de cada profissional, acabará usando um pouco de cada um para ter uma grande ideia, que será executada por um deles. A solução seria patentear o projeto, mas como registrar isso? É muito caro e demorado. Imagine contratar um advogado porque o cliente usou parcialmente seu projeto?”, observa.

Problemas, diz o profissional, existem também entre os arquitetos. “É muito menos o cliente pedindo, e mais o arquiteto oferecendo [projetos], ainda mais em arquitetura corporativa. Quando você entra numa concorrência, o projeto já nasce de uma maneira comercial, que é a melhor maneira de o arquiteto vendê-lo ao cliente. No corporativo, o cliente sempre está com o tempo esmagado”.

O processo seria diferente em um concurso público, em sua análise. “No caso dos projetos de concurso, na maioria das vezes a obra não se destina a um uso particular. Fica até difícil determinar o cliente, que pode ser o usuário da biblioteca ou do museu. O ideal seria uma pré-seleção dos escritórios interessados, sem apresentação de projeto, para então definir de três a cinco deles, que seriam adequadamente apresentados e remunerados por isso.

Ganharíamos na qualidade final. Sinto que o mercado de arquitetura é muito amador, e isso se reflete em tudo, daí as minhas críticas à AsBEA. Essa falta de profissionalismo, que muitos dos arquitetos enxergam como um diferencial,
acaba destruindo a categoria e o mercado”.

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Arquiteto: Rino Levi
Designer: Charles Eames
Prato: salada
Cor: azul
Forma: círculo
Cheiro: é difícil. Não sei falar, até sei qual é... o cheiro é bom porque te traz lembranças
Cidade: São Paulo
Filme: não lembro
Livro: não gosto muito, leio, paro...
Música: Valsa do Imperador

 

Por: Vanda Maria Mendonça Imagem: Isis Minchillo

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