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08/09/2010
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Outras Brasílias

Da aparentemente interminável enxurrada de (merecidas) homenagens que a Brasília de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer tem recebido por causa dos 50 anos de sua inauguração, uma que certamente merecia a visita era a exposição “Outros Planos: Brasílias” que foi vista no Museu da Casa Brasileira (MCB), em São Paulo. Organizada pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), a mostra foi uma chance rara para conferir de perto as sete propostas finalistas
do concurso realizado entre setembro de 1956 e março de 1957 para selecionar o plano-piloto do que viria a ser a futura capital do Brasil.

“Sempre que se fala em Brasília, as pessoas ficam muito atentas ao plano-piloto do Lúcio Costa e aos projetos de  Niemeyer. Quisemos tirar um pouco desse foco específico para jogar luz nos sete finalistas do concurso”, resume o arquiteto Eduardo Della Manna, que assina a curadoria da exposição. “Muitos nem sabem que esse concurso aconteceu”, observa o curador, explicando que o mérito de juntar todo o material que compõe a exposição cabe ao arquiteto Jeferson Tavares, que o garimpou pacientemente durante seis anos como parte de sua dissertação de mestrado em arquitetura pela USP de São Carlos.

Enredo policial
“Juntar esse material foi quase uma perseguição policial”, brinca Jeferson. “Durante seis anos fiz diversas viagens para garimpar em arquivos públicos e particulares espalhados por São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiás e várias
outras localidades. Em cada biblioteca na qual pesquisava encontrava um dado que me levava a um participante ainda vivo de uma das equipes que concorreu no concurso – e a um novo pedaço do material”, explica o pesquisador, que acabou conseguindo montar grande parte desse enorme quebra-cabeça. “Das 72 equipes que se inscreveram no concurso, 26 chegaram a apresentar propostas completas. Algumas dessas se perderam definitivamente, mas, do que ainda existe, acho que tenho praticamente tudo”, revela.

Apesar do desconhecimento praticamente geral de como a história acabou chegando lá, todo mundo sabia de cor e salteado como o concurso terminou: Lúcio Costa levou o primeiro lugar com seu icônico projeto em forma de avião que – para o bem e para o mal – formataria a cidade que substituiria o Rio de Janeiro como capital federal. Ao voltar as luzes sobre o concurso do plano-piloto de Brasília, a AsBEA resgata aquele que foi o acontecimento mais relevante na história do urbanismo brasileiro do século XX e passa a limpo um momento que marcou profundamente a geração modernista.

“Nosso objetivo é tentar resgatar um pouco desse espírito da época para entender o que motivou aquela geração de arquitetos a entrar de cabeça nesse concurso”, explica Eduardo Della Manna. “Esses projetos representam muito bem o espírito desenvolvimentista dos anos JK, aquela ânsia por um Brasil moderno. Acho que a construção de Brasília é o coroamento do período heroico da arquitetura brasileira, quando nossa arquitetura se lança no mundo e mostra que o
Brasil poderia apresentar uma maneira diferente de fazer arquitetura moderna”, avalia o curador.

Outro mérito dessa exposição é tentar resgatar do limbo histórico a longa cadeia de decisões que levaria o presidente Juscelino Kubitschek a tirar a sede do governo federal do litoral brasileiro para instalá-la no então ermo interior do país. “A exposição também mostra um pouco de como começou a surgir a ideia da interiorização da capital. Isso não foi uma invenção do Juscelino, mas algo que já vinha se desenvolvendo desde os Inconfidentes Mineiros e que contou com José Bonifácio entre seus defensores”, diz Eduardo.

“A temática das cidades foi tomada de assalto por uma multidão de especialistas de outras áreas. Temos filósofos, jornalistas, políticos e ambientalistas dos mais variados matizes falando sobre cidades... mas, por algum motivo, os arquitetos estão ausentes desse debate. Eles se retraíram de uma questão que era muito intensa justamente naquele período da construção de Brasília. Acho positivo que a AsBEA passe a discutir a cidade de forma mais sistemática”, finaliza Eduardo.

O projeto ganhador de Lúcio Costa para o plano-piloto de Brasília. “Na minha opinião, a Brasília do Lúcio Costa não
é a melhor cidade para se morar. Mas não tenho dúvidas de que ela funciona muito bem como uma capital federal. O
projeto dele é muito eficaz em captar o que os brasileiros queriam de sua nova capital e ele trabalha muito bem com a simbologia... essa ideia do avião e da cruz”, comenta Eduardo Della Manna.

Sobre o projeto coordenado pelo arquiteto Boruch Milmann em parceria com João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves, Jeferson Tavares comenta que seu maior destaque foi a importação de conceitos do urbanismo espanhol para disciplinar o crescimento futuro da cidade. “Tratava-se de um sistema linear, uma rodovia que tangenciava toda a cidade ao longo da qual iam sendo construídos os novos bairros”, sintetiza o arquiteto.

Houve empate na terceira e quarta colocações, com dois dos projetos mais experimentais do concurso. De autoria dos irmãos Marcelo e Maurício Roberto (da MM Roberto), o projeto propõe uma Brasília modular. São células que misturam usos comerciais e residenciais e sedes administrativas do governo federal. Essas células poderiam ser replicadas conforme o crescimento da cidade.

Já o projeto de Rino Levi (coordenador), Roberto Cerqueira César, Luis Roberto Carvalho Franco e Paulo Fragoso seria baseado em enormes arranha-céus multiúso com até 300 metros de altura. As pessoas poderiam morar e trabalhar dentro desses prédios sem precisarem sair. “É uma concepção bastante avançada para a época, trabalhando com o conceito de megaestrutura, coisa que só viria a ser abordada pela arquitetura mundial em meados da década de 1960”, comenta Della Manna.

Empate triplo na quinta posição. O projeto capitaneado por João Vilanova Artigas, em parceria com Carlos Cascaldi, Mário Wagner Vieira da Cunha e Paulo de Camargo e Almeida, se distinguia de todos os demais por ser o único a prever locais para a habitação dos candangos (os operários que construíram Brasília) dentro do plano piloto da cidade. Em todos os outros projetos, os candangos foram alocados em cidades-satélites, ou seja, na periferia da capital.

Para Jeferson Tavares, o maior destaque do projeto de Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti está no fato da equipe liderada pela dupla ter esboçado uma série de leis que ordenariam o uso do solo na futura cidade. “O projeto deles é um verdadeiro primor nesse sentido”, comenta o pesquisador.

No caso do plano de Milton Ghiraldini, o que chama a atenção é a escala. “O Ghiraldini desenvolveu um plano regional inspirado num grupo de trabalho pertencente à FAU no qual ele trabalhava junto com o engenheiro Luiz Ignácio Anhaia Mello”, afirma Jeferson.

 

Por: Fábio Rodrigues Imagens: divulgação

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